Onde a Geologia e a História da População Negra se Encontram na Cidade do Rio de Janeiro?

Todos que chegam à cidade do Rio de Janeiro notam de imediato sua beleza, que mistura praia com florestas e maciços rochosos que saltam ao relevo. As rochas estão presentes tanto no cenário natural, a exemplo dos morros do Pão de Açúcar, Corcovado ou Pedra de Gávea, quanto nas fachadas dos principais edifícios históricos da cidade, como o Teatro Municipal, a Igreja da Candelária e o Forte de Copacabana.

Nessa mesma cidade está preservado o que foi o principal porto de chegada de africanos escravizados da América Latina e, como todos sabem, a cidade do Rio de Janeiro foi construída às custas de muito suor e sangue desses africanos. O município é hoje o segundo mais negro do país, esbanja cultura negra e a resistência dos afrodescendentes.

Mas afinal, essas duas histórias se encontram? Para responder a essa questão entrevistamos a geóloga Kátia Mansur, Professora do Instituto de Geociências da UFRJ, onde leciona as disciplinas Geologia Geral e Geoconservação.

Para Kátia, essas duas histórias se encontram já na chegada da população africana no Cais do Valongo, onde estima-se que desembarcaram de 500 mil a 1 milhão de africanos escravizados. Kátia conta que no Cais do Valongo estão sendo descritos blocos de gnaisse facoidal, leptinito, kinzigito e diabásio, sendo os gnaisses formados durante a amalgamação e o diabásio formado durante a separação do continente Sul-Americano do continente Africano. Portanto, milhões de anos depois, o mesmo local que guarda o registro geológico da união e posterior separação desses dois continentes também passou a guardar o registro histórico do doloroso reencontro.

Cais do Valongo – Rio de Janeiro

Kátia indica ainda que a geologia também está presente em um dos maiores símbolos de dor, resistência, e cultura negra da cidade, o Quilombo da Pedra do Sal.  

A região do entorno da Pedra do Sal, incluindo o Cais do Valongo, mantém viva a triste história da chegada e comercialização dos africanos escravizados. No momento do desembarque, muitos já estavam mortos ou doentes devido às condições insalubres da viagem. Essa história também contempla a disposição do povo negro que estava aqui pronto para receber os novos africanos. A população negra que já residia no Brasil preparava comida para os recém-chegados, cuidava dos doentes e fazia o sepultamento dos que haviam falecido. O local guarda, por fim, a história de resistência de um povo que, mesmo após vários processos de tentativa de expulsão daquela área, reivindicou seus direitos até que a importância do Quilombo da Pedra do Sal fosse devidamente reconhecida.

A “Pedra do Sal” nada mais é do que um belo afloramento de gnaisse facoidal. Essa rocha que presenciou os horrores aos quais eram submetidos os africanos escravizados também pôde, e ainda pode, acompanhar de perto a resistência dos descendentes desse mesmo povo através de sua religião, de sua música e de sua alegria expressa no carnaval.

Pedra do Sal – Rio de Janeiro

Aliás, a professora Kátia Mansur conta que o gnaisse facoidal é tão íntimo do carnaval carioca que no desfile do ano de 2016 do Acadêmicos do Salgueiro, com o samba enredo “A Ópera do Malandro”, o próprio estava lindamente desenhado em muitos dos carros alegóricos.

Desfile da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro no ano de 2016 (Foto: Reprodução/TV Globo)

Kátia também lembra, ao citar o artigo “Cantarias e pedreiras históricas do Rio de Janeiro: instrumentos potenciais de divulgação das Ciências Geológicas” dos Pesquisadores da UFRRJ Soraya Almeida e Rubem Porto, que o próprio desenvolvimento da cidade se deu a partir da exploração de pedreiras. Algumas delas eram localizadas na própria região que hoje é denominada Pequena África.

O andar pela região central deixa evidente que as mãos negras que ergueram a cidade do Rio de Janeiro tinham muitos dons e talentos em mineração e extração de rocha ornamental. A maestria no ofício é expressa pela qualidade das fachadas dos prédios históricos.

O que ainda intriga a pesquisadora são as esculturas encontradas de gnaisse facoidal. Como se trata de uma rocha muito resistente, pode-se imaginar como deve ter sido difícil esculpi-la de forma tão delicada. Kátia diz que não sabe a origem do dom desses artistas. Seria da África? Seria da Europa? Fica a incógnita.

  • Autora: Larissa Neves Lago – Núcleo Rio
  • Revisora: Sofia Correia – Núcleo Rio

Referências:

ALMEIDA, S.; PORTO JR. Cantarias e pedreiras históricas do Rio de Janeiro: instrumentos potenciais de divulgação das Ciências Geológicas. Terra e Didatica , v. 8, 2012, p. 3-23.

MANSUR, K. L.; CARVALHO, I. S., BARROSO, E.V. & DELPHIM, C. F. O gnaisse facoidal: a mais carioca das rochas. Anuário do Instituto de Geociências – UFRJ [online]. 2008, vol.31, n.2, pp. 9-22.

http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/about-this-office/single-view/news/valongo_wharf_is_the_new_brazilian_site_inscribed_on_unesco

http://www.incra.gov.br/sites/default/files/terras_de_quilombos_pedra_do_sal-rj.pdf

https://g1.globo.com/economia/noticia/populacao-que-se-declara-preta-mantem-tendencia-de-crescimento-no-pais-aponta-ibge.ghtml

http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/carnaval/2016/noticia/2016/02/salgueiro-faz-ode-malandragem-com-genis-e-zepelim.html