Entrevista ABMGeo: Simone Moraes e Tatiane Combi

Por Suzan Vasconcelos

O projeto de extensão Geoarretadas, concebido e coordenado pela profa. Dra Simone Moraes (bióloga) e pela profa. Dra. Tatiane Combi (oceanógrafa), ambas do Departamento de Oceanografia do Instituto de Geociências da UFBA, e que conta também com a participação das professoras Dra. Ana Cecília Barbosa (oceanógrafa), Dra. Maria Eloísa Rosa (agrônoma), Dra. Suzan Vasconcelos (matemática), Dra Jailma Souza (geóloga) e Me. Rafaela Chaves (bióloga), está em sua segunda edição. Na primeira edição, em 2019, os cursos de graduação em Geofísica, Geografia, Geologia e Oceanografia da instituição foram apresentados de maneira didática e lúdica para alunas e alunos de escolas públicas, porém em sua segunda edição, neste ano de 2020, o público alvo se tornou os professores da rede pública estadual de ensino básico.

Profa Simone, como surgiu a ideia de levar geociências para as escolas públicas? Como você avalia a experiência de trabalhar com uma equipe multidisciplinar de geocientistas na organização e realização do evento?

Simone: A ideia surgiu da nossa percepção, a qual foi confirmada por dados da literatura, de que poucas mulheres seguem carreira nas Geociências e há uma defasagem crescente da presença feminina nos cursos de graduação e de pós-graduação e, principalmente, de docentes/pesquisadoras desta área nas universidades, então decidimos levar conhecimentos geocientíficos a discentes e docentes do ensino básico para demonstrar a importância destas ciências para a sociedade e motivar vocações, principalmente de estudantes do sexo feminino.

Assim, constituímos uma equipe de professoras e alunas dos cursos de Geologia, Geografia, Geofísica e Oceanografia do Instituto de Geociências da UFBA cujos conhecimentos acadêmicos e pontos de vista se complementam para demonstrar, ensinar e discutir as diversas potencialidades e formas de aplicação destas ciências no cotidiano. No processo, aprendemos umas com as outras e com a comunidade escolar sobre a importância desta troca de experiências entre a universidade e a sociedade.

Profa Tatiane, como foram selecionadas ou convidadas as escolas participantes? Como foi a receptividade ao projeto na primeira e segunda edição? O que precisou mudar devido ao cenário da pandemia?

Tatiane: Na primeira edição do projeto, em 2019, nosso foco foi trabalhar diretamente com colégios estaduais de Salvador. Convidamos algumas escolas de diferentes regiões do município, contando também com contatos que a prof. Simone Moraes e a prof. Rafaela Chaves tinham com colégios com os quais haviam trabalhado em outros projetos. Considero que tivemos uma ótima aderência ao projeto, que contou com a participação de 68 estudantes e 3 professores do Colégio Estadual Almirante Barroso, localizado no bairro de Paripe, e 2 professores do Colégio Estadual Alfredo Magalhães, situado no bairro do Rio Vermelho. Esta fase do projeto foi desenvolvida com recursos da Pró-Reitoria de Extensão da UFBA (Edital PAEXDoc 2019 – Projeto Nº 13350).

Já neste ano, devido à suspensão das atividades presenciais nas escolas e universidades, o projeto foi adaptado para um curso de formação para professores do Ensino Básico do estado. Com recursos da Pró-Reitoria de Extensão da UFBA (Edital PAEXDoc Tessituras – Projeto Nº 20060) e o apoio do Programa Ciência na Escola vinculado à Diretoria de Educação Superior da Coordenação Executiva de Projetos Estratégicos da Educação da Secretaria de Educação do Estado da Bahia (CEPEE/SEC/BA), oferecemos 100 vagas para professores de todo o estado e o curso está sendo realizado de forma totalmente online. O foco do curso continua sendo as Geociências, mas levando em consideração os temas sugeridos pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e também outros cujo caráter multi e transdisciplinar permite sua utilização para trabalhar diversos conteúdos do Ensino Básico. A receptividade nessa segunda edição foi excelente, tivemos quase 300 professores inscritos, demonstrando grande interesse por esse tipo de formação.

Profa Simone, qual a sua avaliação dos resultados, levando em consideração os feedbacks dos estudantes e das escolas participantes da primeira edição?

Simone: Nesta fase do projeto, tivemos um índice médio de 85% de presença nos seis encontros quinzenais que realizamos aos sábados no Instituto de Geociências da UFBA (IGEO/UFBA) e, em todos eles, obtivemos feedbacks positivos das atividades realizadas. Ao final do curso, recebemos relatos emocionantes dos discentes e docentes em relação à experiência de conhecer a UFBA, como são realizadas as pesquisas na universidade e como este conhecimento pode ser aplicado no cotidiano; além de várias consultas sobre a forma de ingresso nos cursos de graduação e pós-graduação do IGEO/UFBA, confirmando assim que conseguimos cumprir o nosso objetivo de levar as Geociências à comunidade escolar e motivar futuros geocientistas.

Profas Simone e Tatiane, qual o sentimento ao realizar um projeto que almeja difundir geociências e promover inclusão social? Quais os planos para o futuro? Por favor, deixem uma mensagem de incentivo para outras geocientistas.

Simone: O conhecimento científico é fundamental na formação do indivíduo para a sociedade e as Geociências têm o potencial adicional de fazer com que os estudantes reflitam sobre as consequências das ações humanas sobre o meio ambiente e a importância do desenvolvimento sustentável. Sendo assim, temos o enorme desafio de fazer com que estes conhecimentos cheguem a cada vez mais discentes e docentes do nosso estado e no processo motiva-los, principalmente as estudantes do sexo feminino, para que constituam as novas gerações de geocientistas que contribuirão para a discussão e adoção de soluções cientificamente corretas, mais justas e igualitárias para os problemas socioambientais.

Tatiane: É muito gratificante poder fazer parte desse projeto pois, além de levar conhecimentos geocientíficos para as escolas, temos a chance de aproximar a comunidade escolar da Universidade e inspirar vocações entre os estudantes envolvidos. Além disso, um dos objetivos do projeto é atrair meninas às Geociências, que muitas vezes é uma área ainda pouco ocupada por mulheres. Assim, além de formar e informar, acredito que o projeto possa inspirar vocações e sonhos por onde passa. Espero que tenhamos fôlego e apoio para seguir por muitos anos, levando conhecimentos nas nossas respectivas áreas e sempre aprendendo junto com os participantes.   

Simone Moraes– É professora Associada II do Departamento de Oceanografia do IGEO/UFBA. Possui bacharelado em Ciências Biológicas, mestrado e doutorado em Geologia pela UFBA. Desenvolve projetos de pesquisa/extensão que visam a abordagem de Paleontologia no Ensino Básico e divulgação e valorização dos fósseis da Bahia. É líder do Grupo de Estudos de Foraminíferos, no qual coordena projetos de pesquisa e orienta estudantes de graduação e pós-graduação sobre ecologia e tafonomia de foraminíferos, sedimentologia e avaliação de impacto ambiental

Tatiane Combi-Possui graduação em Oceanografia pela Universidade Federal do Paraná, mestrado em Sistemas Costeiros e Oceânicos pela Universidade Federal do Paraná e doutorado em Ciências Ambientais: Tutela e Gestão de Recursos Naturais pela Universidade de Bolonha. Atualmente é Professora Adjunta na Universidade Federal da Bahia (UFBA) atuando principalmente nos seguintes temas: contaminantes emergentes, poluentes orgânicos persistentes, contaminação por petróleo, testemunhos sedimentares e poluição marinha