ABMGeo Entrevista

Por Rosaline C Figueiredo e Silva

 

O Parent in Science, traduzido como “Pai/Mãe na Ciência”, é um grupo formado por cientistas mães (e um pai) fundado em 2016 pela pesquisadora Profa. Dra Fernanda Staniscuaski (UFRGS) mãe de três filhos, com intuito de levantar a discussão sobre a maternidade (e paternidade) dentro do universo da ciência do Brasil. O grupo conta atualmente com 17 mães e um pai, além de embaixadoras, e tem como missão principal trazer conhecimento e luz ao debate sobre os desafios e consequências de quem concilia a maternidade e carreira como cientista no Brasil, questão comumente ignorada no meio científico.

Parent In Science

Profa. Fernanda, como surgiu a ideia do Parent in Science? O que motivou mães e pais cientistas em criar o grupo?

O Parent in Science surgiu a partir da minha experiência pessoal, após me tornar mãe. Comecei a enfrentar uma série de dificuldades, principalmente em relação ao tempo de dedicação para o laboratório, mesmo depois da licença maternidade.  E eu não via ninguém falando sobre isso…. o máximo ouvia que “é difícil, mas dá”; comecei a me questionar sobre ser capaz de conciliar ser mãe e cientista. Aí um dia fiz um post em uma rede social, sobre como estava pagando um preço alto (principalmente em relação a conseguir recursos para o laboratório) pela escolha de me dedicar aos meus filhos. E muitas outras pessoas começaram a comentar que estavam passando pela mesma situação. Então, junto a algumas destas pessoas, criamos o Parent in Science. Nosso objetivo inicial era, de alguma maneira, buscar recursos para criar um fundo de pesquisa específico para cientistas mães. Mas aí nos deparamos com um obstáculo…. não tínhamos dados, principalmente quantitativos, sobre o impacto da maternidade na carreira científica no Brasil. Até mesmo em termos mundiais, a quantidade de dados era limitada. Então o Parent in Science virou um projeto de pesquisa, que visava entender o impacto da maternidade, em termos de produção científica e obtenção de financiamento, na carreira das cientistas brasileiras. Mostramos como a chegada dos filhos impacta a carreira das cientistas e através destes dados conseguimos iniciar uma série de mudanças em nossas instituições e em nossas agências de fomento.

Profa. Fernanda, a pandemia tem impactado de forma negativa mães cientistas. Comente, por favor, sobre as publicações que conseguiram produzir relacionadas a esse tema em revistas conceituadas internacionalmente, como Science e Nature. Como você avalia o impacto na vida acadêmica das mães cientistas pós-pandemia?

Desde o início da pandemia temos trabalhado para produzir informação sobre o como a pandemia já está impactando a equidade de gênero e raça na ciência. Em maio, publicamos na Science uma carta alertando para o impacto da pandemia na carreira das cientistas mães (https://science.sciencemag.org/content/368/6492/724.1). Em junho, depois de coletar dados de quase 15 mil cientistas, produzimos um informativo sobre Pandemia e Produtividade na Ciência (https://bit.ly/2ApPHl0). Parte dos dados deste levantamento foram divulgados como preprint (https://www.biorxiv.org/content/10.1101/2020.07.04.187583v1, que está em processo de revisão em um periódico agora!). Nossos dados foram citados em editoriais de duas das principais revistas científicas do mundo: Nature (https://www.nature.com/articles/d41586-020-02288-3) e Science (https://www.sciencemag.org/careers/2020/07/pandemic-hitting-scientist-parents-hard-and-some-solutions-may-backfire). E os dados também foram mostrados recentemente em um artigo da “Career Guide” da Nature (https://www.nature.com/articles/d41586-020-02681-y).

Muito importante que este assunto esteja ganhando visibilidade, pois as consequências serão devastadoras se ações institucionais não forem tomadas, imediatamente! Os dados do nosso levantamento confirmam aquilo que já sabíamos, infelizmente. Mulheres estão sendo muito mais impactadas profissionalmente na academia durante a pandemia do os homens. Algo que chamou atenção do grupo foi o fato de não existir uma diferença, em relação a submissão de artigos, entre as cientistas negras com ou sem filhos, como vimos para as mulheres brancas, com ou sem filhos. Uma maior porcentagem de mulheres brancas sem filhos conseguiu submeter artigos durante a pandemia, quando comparadas as mulheres brancas com filhos. No entanto, para mulheres negras não há esta diferença. Pra gente, isto mostra que o racismo é um problema central na academia, com um peso muito grande para as mulheres. Redes de colaboração são muito importantes no fazer ciência, especialmente neste momento da pandemia. E, apesar de não avaliarmos isto diretamente neste levantamento, acreditamos que seja uma parte da razão desse cenário que vimos em relação às submissões. Pós-pandemia teremos um retrocesso muito grande nas questões de equidade dentro da academia se simplesmente assistirmos ao que está acontecendo sem agirmos, institucionalmente, para reverter isto.

A ABMGeo está preparando em parceria com Parent in Science um guia para inclusão de bebês e crianças em eventos científicos. Quais as ações necessárias para que essa seja uma prática comum no Brasil?

Em primeiro lugar, precisamos normalizar a presença de crianças e bebês nos espaços acadêmicos, incluindo aqui eventos científicos. Excluir as crianças destes espaços significa, na maioria das vezes, excluir as mães destes espaços também. Participar de um evento quando temos filhos pequenos é bem complicado…. por isso nossas sociedades científicas precisam adotar como prática comum o oferecimento de espaços de recreação em seus eventos. Em nosso site temos um documento com orientações para os organizadores de eventos (https://www.parentinscience.com/documentos).

Em relação à inclusão da maternidade no currículo Lattes, o que você acha que ainda falta para concretizar essa ação tão importante?

O que falta é que de fato se reconheça que a maternidade faz parte da nossa carreira! A ideia da campanha #maternidadenolattes foi trazer visibilidade para esta discussão. Precisamos que as pausas na carreira, em decorrência da maternidade, estejam sinalizadas nos currículos para que a análise de produtividade seja feita de uma maneira justa, quando estamos comparando currículos. Seguimos pressionando o CNPq para que inclua um campo específico para as licenças no Lattes.

Profa Fernanda nos fale um pouco sobre o recém-divulgado programa de Embaixadoras do Parent in Science. E quais os planos futuros do grupo? Deixe por favor, uma mensagem final para mães e pais cientistas!

A ideia do Programa de Embaixadoras é capilarizar a influência do Parent in Science a um alcance nacional, buscando impacto no maior número de estados possível a fim de mobilizar redes locais, levantar dados de realidades estaduais do ecossistema científico brasileiro e habilitar soluções para problemas da esfera da maternidade na academia. O programa foi muito bem recebido e tivemos mais de 100 inscritos. Agora, contamos com 73 embaixadores e embaixadoras de todas as regiões do Brasil, representando 18 estados mais o DF e 53 instituições de ensino e pesquisa. Estamos muito animadas com este programa, que já está gerando frutos em muitos lugares. 2021 será um ano de muitas conquistas, não temos dúvidas.

Fernanda Staniscuaski – é graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2002), com doutorado em Biologia Celular e Molecular no Programa do Centro de Biotecnologia da UFRGS (2007). Realizou estágio de Pós-doutorado no Departamento de Biologia da Universidade de Toronto em Mississauga, na área de Biologia Molecular e Fisiologia de Insetos, e foi bolsista de Pós-doutorado Júnior no Departamento de Biofísica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Foi bolsista PNPD-CAPES do Centro de Biotecnologia da UFRGS, trabalhando com aquaporinas de plantas. Tem experiência nas áreas de Biologia Molecular, com ênfase em genes de aquaporinas de plantas e o papel destas proteínas na nutrição vegetal e resposta a estresses abióticos. Tem experiência também em fisiologia de insetos, bioquímica de macromoleculas e toxinas. Atualmente é Professora Associada I do Departamento de Biologia Molecular e Biotecnologia da UFRGS. É fundadora e coordenadora do projeto PARENT IN SCIENCE. Mãe de três filhos, esteve em licença maternidade em 2013, 2015 e 2018.